Congelar óvulos, congelar a carreira: o que ninguém conta sobre a "segunda parte"

O congelamento de óvulos é vendido, cada vez mais, como uma forma de "pausar o tempo" e garantir a maternidade no futuro. Grandes empresas oferecem o procedimento como benefício, e avós ajudam a financiar o tratamento como quem ajuda na entrada de um imóvel. Mas há pouca discussão sobre o que acontece anos depois, quando essas mulheres realmente tentam usar os óvulos congelados.

A história que virou símbolo

Em 2013, Brigitte Adams estampou a capa da Bloomberg Businessweek com a manchete "Freeze your eggs, Free your career" (Congele seus óvulos, liberte sua carreira). Solteira, no fim dos 30 anos, ela congelou 11 óvulos por US$ 19 mil. O plano: trabalhar mais alguns anos, encontrar o parceiro ideal e ter filhos.

 

Não foi o que aconteceu. Em 2017, aos 44 anos, sem o amor esperado, ela decidiu seguir sozinha. Ao descongelar os óvulos: 2 não sobreviveram ao processo, 3 não fertilizaram. Dos 6 embriões formados, 5 eram anormais. O último foi transferido ao útero — e a gravidez não vingou. Suas chances de ter um filho genético caíram para quase zero.

Os números que a publicidade não mostra

Segundo estudos publicados, uma mulher que congela 10 óvulos aos 36 anos tem entre 30% e 60% de chance de ter um bebê com eles. O resultado varia tanto de pessoa para pessoa que especialistas afirmam ser quase impossível prever o desfecho individual.

Os dados sobre fertilidade feminina ajudam a explicar: aos 35 anos vem o chamado "precipício da fertilidade", quando quantidade e qualidade dos óvulos caem de forma acentuada. Aos 40, a chance de engravidar em um mês é de cerca de 5%; aos 45, de apenas 1%.
 
A "pirâmide invertida"

Especialistas descrevem o processo como uma pirâmide invertida: começa-se com certo número de óvulos e perde-se um pouco em cada etapa. Entre 5% e 15% não sobrevivem ao descongelamento; os que sobrevivem são fertilizados; os embriões são avaliados por critérios rigorosos; nem todos aderem ao útero; e a gestação enfrenta os riscos habituais, inclusive abortos espontâneos.

Outras histórias, mesmos desafios
  • Amy West — congelou 26 óvulos aos 37. Aos 40, engravidou na segunda tentativa. Hoje é mãe, com óvulos de reserva.
  • Carolyn Goerig Lee — congelou 25 óvulos e planejava uma família grande. Teve gêmeos, perdeu os demais óvulos entre anomalias e abortos e, para ampliar a família, usou óvulos doados pela irmã. "Tenha um plano B. Você ainda pode ser mãe."
  • MeiMei Fox — congelou 18 óvulos aos 37. Todo o lote foi destruído durante o transporte entre clínicas. Depois de três anos de FIV e cerca de US$ 100 mil investidos, teve gêmeos.
A falta de transparência do setor

Brigitte Adams criou uma comunidade sobre o tema e descobriu o quanto a indústria reluta em divulgar taxas de sucesso. Muitas clínicas vendem um único ciclo de captação sem mencionar que talvez seja necessário mais de um. No caso dela, os exames já indicavam queda da fertilidade — provavelmente seriam necessários mais de 11 óvulos.

"Estamos vendo apenas metade da história, uma história muito otimista", diz ela. "Você precisa ver as duas."
Um recomeço possível

Após um período de luto e reflexão, Brigitte recomeçou a FIV com óvulo e sêmen doados. Hoje espera uma menina. Ela segue defendendo o congelamento — desde que as mulheres estejam bem informadas sobre os resultados possíveis, inclusive os ruins.

A mensagem central: congelar óvulos não é garantia de maternidade, mas também não é o fim da linha. A decisão ideal passa por avaliação individualizada, dados realistas e um plano claro — é esse tipo de conversa honesta que faz a diferença na jornada de quem sonha em ser mãe.

Fonte:  The Washington Post