“Duas mães, uma gestação”: o que o estudo do JAMA diz sobre eficácia e segurança da FIV recíproca A FIV recíproca (ou gestação compartilhada) é uma forma de fertilização in vitro em que uma parceira fornece os óvulos e a outra faz a gestação.
O termo "ROPA" na reprodução humana refere-se ao método de Recepção de Óvulos da Parceira (em inglês, Reception of Oocytes from Partner). É uma técnica de fertilização in vitro (FIV) desenvolvida especificamente para casais homoafetivos femininos, permitindo que ambas as mulheres participem ativamente do processo de maternidade. Para muitos casais de mulheres, isso tem um valor afetivo importante e uma dúvida comum é: funciona bem? E é seguro?
Um estudo publicado no JAMA analisou dados de 2022 do SART, um grande registro de tratamentos de reprodução assistida nos Estados Unidos. Foi um marco porque foi um dos primeiros recortes em que o sistema passou a registrar informações que permitem identificar melhor ciclos realizados por casais de mulheres, possibilitando comparar a FIV recíproca com a FIV autóloga (quando a mesma pessoa usa os próprios óvulos e também gesta).O que os dados mostraram sobre resultadosDe forma geral, o estudo encontrou que a FIV recíproca teve resultados semelhantes aos da FIV autóloga em desfechos importantes, como:
- taxas de gravidez
- nascidos vivos
- perdas gestacionais
- gestações múltiplas
Ou seja: pelos dados analisados, a gestação compartilhada não apareceu como uma alternativa “menos eficaz”.E sobre segurança do procedimento?Quando falamos em segurança, é útil separar em duas partes:
Segurança do tratamento em si (FIV): a FIV é um procedimento amplamente utilizado no mundo, com protocolos bem estabelecidos. Como qualquer tratamento médico, envolve riscos (por exemplo, efeitos da estimulação ovariana, complicações raras de punção, e questões ligadas à gestação em si), mas é considerada uma técnica consolidada e geralmente segura quando bem indicada e acompanhada.
Segurança dos desfechos da gestação no contexto da FIV recíproca: no estudo, a maioria dos resultados foi comparável entre os grupos. Porém, houve um ponto de atenção: os autores observaram uma tendência a maior risco de parto prematuro em gestações únicas no grupo da FIV recíproca. Isso não significa que o procedimento seja “inseguro”, mas sugere que esse desfecho merece monitoramento e mais pesquisas para confirmar se é um achado consistente e em quais condições ele aparece.
O próprio estudo também lembra que análises baseadas em registros dependem de como as informações são preenchidas e, como a coleta desses dados sobre parceiros é relativamente recente, ainda há limitações naturais do banco.
Médica ginecologista especialista em Reprodução Assistida

